Começar a carreira em banco ou boutique envolve trade-offs claros entre aprendizado, exposição a deals relevantes e remuneração.
A decisão deve priorizar, na maioria dos casos, o aprendizado e a qualidade da experiência inicial.
A ordem de preferência que proponho reflete esse critério, com ressalvas práticas para perfis e necessidades distintas.
Ideia central
Minha preferência de escolha entre Banco e Boutique na média é:
- Investment Banking dentro de um banco top-tier (aqueles que participam dos principais/maiores deals);
- M&A/DCM em uma boutique de primeira linha;
- Por fim outras posições em bancos.
Essa hierarquia prioriza o aprendizado técnico, a exposição a transações de maior complexidade e a construção de networking relevante para o médio prazo.
Existem exceções que justificam priorizar a boutique ou outra vaga sem ser IB:
- Necessidade imediata de renda (algumas boutiques remuneram estagiários acima da média que bancos — estou recomendando uma vaga que paga mais de R$6.000/mês para meus alunos atualmente por exemplo);
- Tolerância ao ambiente de alta pressão e carga horária (que pode ser tóxico);
- Perfil mais empreendedor: para esse perfil de profissional entendo que boutique pode fazer mais sentido do que banco (estrutura mais enxuta e proximidade com sócios).
O erro de olhar somente o salário
Muitos candidatos tomam a decisão primariamente por salário imediato ou pela marca do empregador sem analisar a qualidade da experiência.
A intuição comum é que boutique = menos prestígio mas mais remuneração, enquanto banco = melhor marca e estabilidade.
Na prática, o banco top-tier tende a proporcionar maior frequência e qualidade de exposição a deals sistêmicos, práticas padrão de mercado e networking com players institucionais, o que acelera a curva de aprendizado técnico e abre mais portas no médio prazo.
Além disso, na minha opinião Investment Banking é uma profissão com “começo, meio e fim”: é ideal para acumular capital intelectual e experiencial rápido, mas não necessariamente um lugar para carreira longa.
Permanecer tempo excessivo em IB pode gerar custos pessoais e de oportunidade.
Essa visão contraria a narrativa de que ficar numa instituição renomada indefinidamente é sempre o melhor caminho.
Mas isso é uma visão pessoal minha, existem pessoas que defendem com unhas e dentes essa posição.
Eu acho mais inteligente ter uma experiência controlada nela e depois migrar (para buy side ou empreender por exemplo).
Critérios práticos para avaliar a qualidade de uma boutique de M&A:
Recomendo analisar os seguintes critérios para definir a qualidade de uma boutique de M&A:
- Track record de deals: avaliar volume e complexidade de transações nos últimos ciclos. Uma boutique de primeira linha terá um fluxo perceptível, ajustado pelo ciclo macroeconômico.
- Quem são os sócios: histórico profissional dos sócios (proveniência de grandes instituições, deals assinados, credibilidade no mercado) é um indicador de capacidade de originação e execução.
- Trajetória dos ex-contratados: para onde foram ex-estagiários/analistas? Esse termômetro qualitativo mostra se a boutique funciona como plataforma de lançamento ou como “ilha” sem saída.
- Escopo da função do estagiário: especificamente, entender se a vaga inclui modelagem financeira (principalmente para estagiário). A participação ativa na análise de deals potencializa muito o aprendizado.
Porque modelagem financeira importa: construção e compreensão de modelos financeiros não é apenas uma habilidade técnica; é a linguagem dos mercados e a prova tangível de capacidade analítica.
Estagiários que constroem e explicam um modelo são vistos como capazes de lidar com trade-offs de capital, implicações fiscais e estrutura de preço — atributos valorizados por buy-side e bancos.
Essa habilidade compõe a “moeda” de troca em processos seletivos subsequentes.
Perguntas-chave para fazer aos recrutadores e aos sócios de boutique:
- Quais deals a instituição participou nos últimos 12 meses?
- Quem faz o workstream de modelagem?
- Para onde vão os ex-júniores?
Você deve ou perguntar isso diretamente ou fazer uma pesquisa para descobrir.
Roteiro de decisão para estágio IB Banco vs Boutique:
- Se você está disposto a sacrificar renda inicial por aprendizado e exposição a grandes deals → priorize IB em banco top-tier.
- Se precisa de remuneração imediata, ou tem forte viés empreendedor e tolera ambiguidade de estrutura → uma boutique de primeira linha com bom track record pode ser preferível.
- Se busca qualidade de vida ou não tolera ambientes de alta pressão → considere posições alternativas dentro de bancos ou áreas corporativas menos transacionais.
Não existe regra pronta para cada situação
Por esse motivo eu recomendo alocar tempo estudando muito bem as áreas do mercado financeiro.
Meu conselho estrutural é priorizar oportunidades que maximizem aprendizado técnico (principalmente no começo da carreira) pois isso abre portas para fazer qualquer coisa depois.
Existem motivos legítimos para priorizar remuneração, ambiente ou perfil empreendedor, e esses devem ser ponderados caso a caso.
Se você tem interesse em refinar sua estratégia de carreira no mercado financeiro, me manda uma mensagem no WhatsApp que podemos trocar uma ideia.
Abs,
Ricardo